15 junho 2006

chuva mágica - nao fui eu que escrevi! clicar aqui para ver post original

o teu mundo chove no meu. Chove assim, estupidamente, no meio da Primavera. Eu sei que, durante todo o dia, o sol foi uma presença discreta. As nuvens tornavam todas as cores apenas derivações do cinzento. Às vezes sentia-me sufocar, porque o calor e o ar abafado eram um manto pesado à volta do meu corpo. Tocas à campainha e não sei como posso sentir o meu coração a bater tão forte. Vou abrir e convido-te a entrar. Estás diferente. Tão diferente. E eu gosto da mudança. Entras e o teu cheiro, novamente um estranho a esta casa, começa a espalhar-se.
Guardei tudo o que ainda tinha teu na caixa ao lado da secretária. São cinco horas. É primavera. E, de repente, sem aviso, o teu mundo chove no meu. É uma chuva lenta, as gotas de água parecem queimar. É uma chuva de memórias emaranhadas. Sentas-te na cama e falamos das nossas novas vidas. Há tanta coisa que escondemos. E vê-se, no lugar que fica atrás dos olhos, tudo o que escondemos. É como se estes quisessem saltar da órbita, enquanto falamos, e contar todos os segredos.

Vejo a linha das tuas costas sobre a brancura da colcha. Deito-me ao teu lado e falo-te ao ouvido. Baixinho, muito baixinho. Falamos sobre as senhoras que fizeram este momento. Sim nós sabemos que a nossa estória, a estória de todos, é escrita pelas velhinhas da casa amarela junto à ponte. Ali, virada para o sítio onde o rio é mais azul e reflecte mais o sol, existe uma casa que tem uma cave. Na cave ficam, todos os dias, todas as horas do dia, as senhoras que tecem o destino. Não o escrevem em papel. Não usam tintas visíveis. Mas não há acasos. Tudo é previsto naquelas linhas coloridas, determinado pelas agulhas de metal compridas. Têm todas o cabelo branco, estão sentadas em cadeiras de tecido florido, daquelas que os emigrantes levam para a praia. As luzes da cave estão sempre acesas. Porque já não existe graduação de lentes que lhes permita ver bem. Atrás daqueles óculos enormes e grossos, vêem cada vez pior. E as cores, as linhas, o destino que tecem, tudo lhes parece mais indiferenciado, desfocado.

Sorrimos a falar disto. Não foi o acaso que nos juntou. Não foi o acaso que nos separou. Foram as velhinhas que se enganaram e, entre o som cadente das agulhas, nos deixaram esbarrar um no outro. A água acumula-se no meu mundo. Quando abro a porta e sais com a caixa das tuas coisas, sais na enxurrada da tua chuva.

2 comentários:

p1ngger disse...

se esse texto é teu, parabéns... é muito bom... muito acima da média. S não é, sinto-me ultrajado!

Cinnamon disse...

Lucia.. que texto lindo e com esta música começa a chover em cada um que lê

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