Liguei-te, era a segunda vez que o fazia naquele dia, a primeira vez foi para combinar este encontro contigo e agora para saber se ainda demoravas. A nossa sala lá no quarteto piscava: era sinal que estava quase, quase a começar. Não atendeste, ignorei-te e fui ver o filme.
Reconheci-te na tela, caminhavas nas nuvens e libelinhas acompanhavam o teu andar, sorriste-me e tiveste um final feliz.
Saí e ainda não tinhas chegado. Fui andando para a nossa toca.
Voltei a ligar-te. Atendeste-me com um: Sei onde estás!
Olhei à volta senti-me observada. Disseste: Estou mesmo à tua frente.
Olhei! Não te vi! Disseste então: Sente-me!
Enrolei os braços em ti, devorei cada pedaço da tua pele, mergulhei em cada traço do teu corpo.
Ouvi do outro lado do telefone: o amor não é cego, é só preciso querer ver onde ele está.
Continuei a engolir-te, respirava-te intensamente...
E foi então que ouvi um Amo-te!
Olhei para trás, lá estavas tu com a minha camisola preferida e os pés descalços.
Pensei, só te vi agora e estive tanto tempo contigo. Lembrei-me que ainda não tinha ido votar, e de como para mim tinha sido difícil chegar a uma resposta à pergunta do referendo:
«Concorda com a liberalização da implantação voluntária do amor, se realizada, por opção do casal, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de amorizade legalmente autorizado?»
Votámos! Ele perguntou se podia andar comigo. Aceitei, caminhámos de mãos dadas.
Filmei tudo para que depois de me partires o coração, pudesse reaver tudo o que te dei, neste país continua a ser crime matar o outro por dentro...
14 fevereiro 2007
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3 comentários:
texto bonito. é teu?
tão lindo, triste, leve, sensível... tão... tão...
tão bonito :)
adorei o texto, adoro esta frase
"neste país continua a ser crime matar o outro por dentro"
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